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Expo Osaka 2025: o futuro é regenerativo — e feito de madeira

Por Isabela Baracat, arquiteta e sócia-fundadora da Pon.to Arquitetura

A cada cinco anos, o mundo se reúne em uma Exposição Universal — ou World Expo — para apresentar inovações, ideias e visões de futuro. Em 2025, é a vez do Japão sediar esse encontro global, com a cidade de Osaka como palco de uma nova edição da Expo, cujo tema é Designing Future Society for Our Lives.


Com apoio da Urbem, maior indústria de madeira engenheirada do Brasil, fui até lá para acompanhar de perto os destaques arquitetônicos e simbólicos dessa edição. Ao longo de vários dias de visita e imersão, percorri dezenas de pavilhões, observei narrativas de diferentes países e busquei entender como os espaços físicos estão sendo usados como meio de expressão para os desafios e soluções do futuro.


O que você confere a seguir são algumas impressões, e provocações, sobre o papel da arquitetura, dos materiais e da madeira engenheirada na construção de futuros possíveis.

 

Por que a Expo importa

 

Desde o século XIX, as Exposições Universais funcionam como plataformas de troca de conhecimento, cultura e tecnologia entre nações. Foram nelas que o mundo conheceu, pela primeira vez, a Torre Eiffel (Expo Paris 1889), o telefone de Bell (Filadélfia 1876), as escadas rolantes, a televisão e até o ketchup Heinz. Mais do que vitrines de inovação, esses eventos se tornaram espaços de antecipação: lugares onde sociedades projetam o que desejam e precisam construir nos próximos anos. Em 2025, a Expo acontece até outubro na ilha artificial de Yumeshima, na baía de Osaka. São mais de 150 países e organizações reunidos em um espaço de 155 hectares, com pavilhões nacionais, instalações experimentais e áreas temáticas articuladas em torno de três eixos centrais: Saving Lives, Empowering Lives e Connecting Lives.

 

A madeira como matéria de futuro

 

A primeira grande impressão ao caminhar pela Expo Osaka é o protagonismo da madeira engenheirada. O centro do evento é marcado por uma estrutura monumental projetada por Sou Fujimoto — um anel de 61 mil m² construído com madeiras japonesas, usando técnicas tradicionais de encaixe. É hoje a maior estrutura de madeira do mundo — e será desmontada e reutilizada ao final da exposição.
Mas esse uso não é pontual. A madeira aparece como elemento construtivo e simbólico em diversos pavilhões. Ela representa circularidade, leveza, flexibilidade e regeneração. Em um cenário global que busca soluções sustentáveis com urgência, a madeira engenheirada surge como resposta sólida, técnica e sensível — não apenas como tendência, mas como linguagem de futuro.

Três pilares da Expo — e os pavilhões que os traduzem

 

Ao longo da visita, três temas se destacaram com força: regeneração, coexistência e tecnologia com propósito. Mais do que diretrizes curatoriais, esses conceitos foram traduzidos em experiências arquitetônicas marcantes. Três pavilhões, em especial, exemplificam como esses princípios se materializam:

 

Regeneração – Pavilhão da Alemanha

O pavilhão alemão parte de uma abordagem sistêmica e radicalmente circular. A construção combina madeira engenheirada, bambu, micélio, terra compactada e aço — todos modulados para fácil desmontagem e reaproveitamento. Até mesmo os conectores são pensados para serem reutilizados. O conteúdo interno reforça essa lógica, com instalações interativas que abordam temas como biodiversidade, restauração de ecossistemas e resiliência urbana. A arquitetura aqui não apenas abriga uma ideia regenerativa: ela é, em si, um organismo projetado para restaurar.

 

 

 

 

Coexistência – Pavilhão do Japão

Projetado por Oki Sato (Nendo) e pelo escritório Nikken Sekkei, o pavilhão japonês explora o tema “Between Lives”, refletindo a convivência entre seres, ecossistemas, tempo e tecnologia. Sua estrutura circular de CLT (cross-laminated timber), feita com ripas verticais de madeira, remete à fluidez e aos ciclos da natureza. A experiência é dividida em três fases: Plant, que conecta o visitante ao mundo vegetal por meio de projeções imersivas e sons orgânicos; Farm, que valoriza o conhecimento agrícola ancestral japonês e os vínculos entre alimento, cultura e território; e Factory, onde tecnologias e técnicas tradicionais — como os encaixes em madeira sem pregos — se encontram para projetar um futuro que respeita o passado.

 

 


Tecnologia com propósito – Pavilhão da Arábia Saudita

Com uma narrativa menos futurista e mais ecológica, o pavilhão saudita apresenta tecnologias voltadas para restauração ambiental. Um dos destaques é o projeto de corais impressos em 3D, implantados no Mar Vermelho para estimular a regeneração de recifes. O visitante acompanha essa ação em tempo real por meio de painéis sensoriais que conectam o espaço expositivo ao fundo do mar. É tecnologia aplicada com intenção, e não apenas com eficiência.

 

 

 

Inovação não é aceleração — é cuidado

Ao final da jornada pela Expo, fica uma sensação clara: o futuro não será moldado apenas por soluções inéditas, mas por decisões conscientes. A inovação que vimos em Osaka está menos ligada à aceleração e mais à reparação — e a madeira engenheirada tem um papel central nisso. Ver o material ser usado com tanto protagonismo em contextos diversos — da tradição japonesa à engenharia alemã — reforça sua relevância como elemento técnico e simbólico. Sustentável, desmontável, leve e regenerativa, a madeira está deixando de ser apenas recurso: ela está se tornando linguagem.

Para saber mais A cobertura completa da Expo Osaka 2025 está reunida nas redes sociais da @urbembr e da @pon.to_. Lá, você encontra fotos, análises e referências sobre os pavilhões, os materiais e as experiências que marcaram essa edição.

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