A madeira engenheirada tem uma lógica própria. Antes de qualquer parafuso, antes da cola industrial, os carpinteiros japoneses já haviam descoberto que ela, quando bem compreendida, é capaz de se sustentar por conta própria.Essa descoberta tem nome: Kigumi. E tem séculos gravados em cada entalhe.
A técnica consiste em esculpir peças de madeira com tal precisão que elas se encaixam sem elemento externo de fixação. O que mantém a estrutura de pé é a geometria das juntas, a inteligência da forma. A Ponte Kintaikyō, construída em 1673 em Iwakuni, é o exemplo mais eloquente: um arco de madeira que vence 36 metros sem um único pilar intermediário.
O que torna essa tradição singular é que sua força vem exatamente do ponto mais vulnerável: a junta. Enquanto em outras tradições construtivas a junção entre materiais costuma ser o elo fraco, aqui ela é o coração do projeto. A estabilidade não é imposta de fora. Ela emerge da relação entre as partes.
Um projeto que começou de trás para frente
O ponto de partida da Galeria Samanea foi uma provocação da Idea!Zarvos ao escritório Architects Office: criar um pavilhão, não um estande de vendas, que antecipasse a experiência do Samanea antes mesmo de o edifício existir. Um portal de madeira na Rua Francisco Leitão, em Pinheiros, aberto ao bairro.
A concepção inicial do projeto, desenvolvida pela Architects Office com Greg Bousquet, previa uma solução modular em madeira engenheirada: elementos de glulam repetíveis, espaçamentos controlados, lógica construtiva previsível. O raciocínio convencional para estruturas em mass timber: eficiente, racionalizado, replicável.
A conversa com a Urbem abriu outro caminho. O estoque da fábrica guardava peças de glulam que não puderam ser aproveitadas estruturalmente em outros projetos por questões dimensionais. Cerca de 300 m² de madeira engenheirada esperando função. A proposta que surgiu daí, construída em conjunto pelas equipes de engenharia estrutural da Urbem e de arquitetura da Architects Office, foi reorganizar o projeto a partir desse inventário.
Como descreveu a equipe da Architects Office: “A grande virada de chave foi identificar a madeira como lugar de reaproveitamento e de extrema especificidade. Geralmente nossos projetos de madeira engenheirada são baseados numa racionalização absoluta do sistema. Aqui o pensamento foi de trás para frente: em cima de um inventário, em cima de um estoque.”
O projeto mudou de natureza. De módulos repetitivos para uma composição de peças únicas, cada uma com suas dimensões específicas, sua história de outro canteiro.
O quebra-cabeça estrutural
A primeira ação foi um mapeamento minucioso de cada peça do estoque: quais serviriam como pilares, quais como vigas primárias, quais como elementos secundários de cobertura. Os pilares foram o único elemento com dimensão uniforme na estrutura, seção 19×19 cm. A partir deles, tudo o mais era variável.
As peças foram ordenadas por peso e função: as mais robustas na base, com função portante mais intensa; as mais delgadas no topo, sustentando a cobertura. Cada viga é composta por duas peças que abraçam o pilar central. Dessas derivam vigas secundárias no sentido oposto, que sustentam terças e caibros. Uma estrutura recíproca: só funciona completamente montada, pois cada elemento depende dos demais para encontrar equilíbrio.
A tensão entre o rigor geométrico da planta e a especificidade de cada peça gerou situações que, em outro contexto, seriam problemas: vigas maiores ou menores do que o previsto, encaixes deslocados, bitolas diferentes se encontrando. A decisão foi não esconder nada. Essa variação tornou-se a identidade visual do pavilhão. As marcas do reúso ficaram visíveis como qualidade estética e tectônica, não como concessão.
Nas palavras da equipe de engenharia da Urbem: “Aqui tínhamos peças de 19, peças de 18, peças com alturas muito diferentes. A planta é muito sistemática, mas a forma como os elementos se agregam é toda muito idiossincrática. Cada peça é única e praticamente não compartilha dimensão com outra.”
A arte dos encaixes na escala industrial
Para que essa lógica de encaixes funcionasse em madeira engenheirada, cada conexão foi calculada digitalmente antes de qualquer corte: esforços de carga, geometria das juntas, sequência de montagem. A usinagem CNC da Urbem traduziu os encaixes parametrizados em peças prontas para se encaixar em campo. O princípio é o mesmo que guiou os carpinteiros japoneses. Os instrumentos são os do século XXI.
A presença de metal é honesta e mínima. Conexões metálicas aparecem apenas nas bases dos pilares, elevados 5 cm do solo para evitar infiltração de água. Parafusos pontuais atuam no fechamento de pórticos, onde a estrutura recíproca precisou de amarração. O restante trabalha pela lógica dos encaixes: uma peça segurando a outra.
A cobertura acompanha essa honestidade: duas águas invertidas com 5% de inclinação, captando água em calha central para reaproveitamento, com telha sanduíche sobre OSB para conforto térmico. Cada inclinação responde à lógica das peças disponíveis, sem forçar uniformidade que o material não tem.
Uma estrutura que não termina
A Galeria Samanea nasce com uma pergunta raramente feita em estandes de venda: o que acontece com este edifício depois?
Os encaixes que sustentam a estrutura são os mesmos que, um dia, permitirão desmontá-la. O que foi montado pode ser remontado em outro lugar, com outra configuração, para outro uso. As peças de glulam que chegaram como estoque ganham, aqui, nova vida útil, e as conexões madeira-madeira garantem que essa vida continue além do pavilhão.
Implantada como portal e praça de acesso ao complexo, que inclui o Café Sagui do chef Cesar Costa, o Cine Samanea e o Domo Samanea, a Galeria condensa o construído para liberar o solo: mais área verde, mais permeabilidade, mais espaço coletivo. A madeira à vista e o paisagismo de Rodrigo Oliveira criam a mesma atmosfera biofílica que o empreendimento definitivo levará ao endereço.
O que permanece
Existe uma linha que conecta o carpinteiro do período Kamakura à fresadora CNC que usinhou as vigas da Galeria Samanea. Não é continuidade direta. Ela atravessou séculos e oceanos. Mas o fio está lá: a intenção de construir com a madeira como protagonista, reduzir ao mínimo o que for acessório, confiar que um encaixe bem pensado vale mais do que um parafuso a mais.
Como resumiu a equipe de engenharia da Urbem: “Em seis anos trabalhando com estruturas, esse projeto me mostrou que não são as forças que atuam nas peças, mas a forma como elas se encaixam, como se distribuem nessa composição.”
Na Galeria Samanea, 300 m² de glulam que não tinham mais função ganharam função, identidade e posição. Um pavilhão que é, ao mesmo tempo, estrutura, linguagem e postura: uma afirmação de que construir bem inclui pensar no que vem antes da obra e no que permanece depois dela.
Se você está desenvolvendo um projeto em madeira engenheirada e quer entender como conexões madeira-madeira e soluções em mass timber podem contribuir para a sua obra, a equipe da Urbem está pronta para essa conversa.